Outro dia, passando pelo feed do Instagram, encontrei o vídeo de uma colega psicóloga refletindo sobre seus 20 anos de profissão. Ela falava sobre empatia, cuidado e entrega, além do sequestro institucional da Psicologia em tempos de polarização.

Senti-me identificada. Eu também carrego 29 anos de trajetória na área, marcados por aprendizado, dedicação e compromisso com a profissão. Fiquei realmente identificada com aquela fala.

Fiz algo que geralmente não costumo fazer: deixei um comentário expressando essa identificação e empatia.

Algumas pessoas reagiram positivamente dando um “like” nesse comentário. Mas,  uma pessoa, desconhecida para mim e para a autora da publicação respondeu com um discurso ideológico inesperado.

Li aquilo com surpresa e muitas dúvidas. Fiquei pensando no que poderia ter motivado um comentário dirigido a uma desconhecida que apenas havia reconhecido a trajetória de uma colega.

Minha mensagem não tinha grandes pretensões. Não era um manifesto, uma declaração política ou uma defesa institucional. Era apenas um gesto espontâneo de reconhecimento. Uma psicóloga dizendo a outra: eu também estou aqui, também percorri esse caminho, também conheço um pouco do que você está falando.

A experiência me fez pensar em como uma manifestação simples pode ganhar sentidos que nunca estiveram na intenção de quem a fez.

Talvez estejamos tão habituados a procurar sinais de pertencimento, oposição e alinhamento ideológico que já não consigamos receber certas falas pelo que realmente são. Antes de escutar, interpretamos; antes de conhecer, classificamos. Às vezes, respondemos não ao que foi dito, mas ao que imaginamos estar por trás das palavras.

Não sei o que motivou aquela resposta, e seria injusto presumir. Ainda assim, o episódio revelou como a polarização pode atravessar até os espaços mais banais da convivência.

Um vídeo bonito, uma fala sensível, um comentário carinhoso. Em que momento tudo isso precisa se transformar em disputa?

Não estou dizendo que a Psicologia deva permanecer alheia às questões políticas. Seria impossível pensar uma profissão voltada à subjetividade, ao sofrimento, aos vínculos e às condições de existência sem reconhecer que a vida também é atravessada pela política. A ética profissional tampouco dispensa pensamento crítico ou debate.

Pelo contrário: diálogo, divergência e reflexão são fundamentais.

Mas há uma diferença entre sustentar uma posição e presumir a posição do outro; entre questionar uma ideia e atribuir uma intenção a alguém que sequer conhecemos; entre discordar e transformar qualquer aproximação em disputa ideológica.

O que mais me chamou a atenção foi a dificuldade de acolher a simplicidade de um gesto sem procurar nele algo oculto.

Às vezes, alguém está apenas sendo gentil, reconhecendo uma experiência compartilhada a quem nunca encontrou pessoalmente.

Nem toda manifestação de afeto é uma declaração política.

Nem toda concordância é uma adesão ideológica.

E nem todo espaço precisa se transformar em campo de batalha.

Tenho pensado que precisamos recuperar a capacidade de estar juntos sem exigir que sejamos iguais; de escutar sem preparar imediatamente uma resposta; de encontrar pontos de identificação sem investigar a qual grupo o outro pertence.

Isso não significa abrir mão das convicções, silenciar divergências ou evitar conversas difíceis. Significa reconhecer que nem toda interação é um confronto e que nem toda pessoa que cruza nosso caminho está nos convocando para uma disputa.

Depois de 29 anos de profissão, continuo acreditando na importância do encontro humano. Talvez porque, no consultório, eu saiba que ninguém cabe inteiramente nas ideias que fazemos dessa pessoa. Há sempre uma história desconhecida, uma experiência que não vivemos e uma complexidade que escapa ao nosso olhar.

Talvez valha a pena levar essa disposição também para fora dele.

Na vida, assim como na clínica, nem sempre precisamos interpretar tudo. Algumas coisas podem simplesmente ser recebidas.

Um gesto de carinho pode ser apenas um gesto de carinho.

Que não percamos a capacidade de reconhecer a beleza disso.

Dra. Fabíola Ferrari

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