Perdoar não é voltar ao mesmo lugar

Dra. Fabíola Ferrari

Talvez uma das coisas mais difíceis sobre o perdão seja entender que ele não apaga o que aconteceu.

Perdoar não é fingir que não doeu.

Não é dizer que aquilo foi pequeno.

Não é transformar uma ferida em algo bonito antes que ela tenha tido tempo de cicatrizar.

E, principalmente, perdoar não significa voltar imediatamente ao lugar de onde saímos.

Às vezes, alguém nos machuca e depois pede desculpas.

Nós ouvimos.

Reconhecemos o arrependimento.

Talvez até compreendamos o que aconteceu.

E ainda assim alguma coisa dentro de nós permanece em silêncio.

Não porque queremos punir.

Mas porque a confiança tem um ritmo próprio.

Ela não responde à lógica da urgência.

Não basta dizer “desculpa” para que o corpo imediatamente se sinta seguro outra vez.

Há coisas que a razão consegue compreender antes que o coração consiga acompanhar.

“Eu sei que você se arrependeu.”

Mas ainda não consigo relaxar.

“Eu acredito que você não queria me machucar.”

Mas ainda preciso de espaço.

“Eu perdoei.”

Mas ainda não quero conversar como antes.

Isso é possível.

E não há contradição nisso.

O perdão pode acontecer antes da confiança.

A compreensão pode chegar antes da proximidade.

O amor pode permanecer enquanto a intimidade precisa de tempo.

Talvez seja por isso que algumas pessoas confundam limite com ressentimento.

Quando alguém não volta imediatamente a ser como era, imaginamos que ainda esteja com raiva.

Nem sempre.

Às vezes, a pessoa simplesmente está escutando o próprio corpo.

Está tentando entender o que mudou dentro dela.

Está descobrindo quais limites precisam existir daqui para frente.

E isso pode ser especialmente difícil quando a relação é importante.

Porque quanto mais amamos alguém, maior pode ser a vontade de resolver tudo rapidamente.

Queremos voltar ao cotidiano.

Fazer uma piada.

Conversar sobre coisas pequenas.

Retomar os planos.

Agir como se nada tivesse acontecido.

Mas, para quem foi ferido, a normalidade pode chegar cedo demais.

E quando ela chega antes da elaboração, podemos acabar sorrindo por fora enquanto alguma coisa dentro de nós continua pedindo cuidado.

Talvez seja preciso permitir que a relação atravesse um período de silêncio.

Não um silêncio de castigo.

Um silêncio de reorganização.

É nesse espaço que podemos começar a perceber o que realmente queremos preservar.

O que precisa mudar.

O que não queremos mais repetir.

E quais partes de nós precisam ser protegidas de outra maneira.

Perdoar também não significa abrir mão da responsabilidade do outro.

Cada pessoa precisa responder pelo que fez.

Não para permanecer presa à culpa, mas porque responsabilidade é uma forma de respeito.

Quando alguém reconhece verdadeiramente o impacto de suas atitudes, não precisa exigir que o outro fique bem imediatamente.

Pode simplesmente permitir que o tempo faça o seu trabalho.

Talvez essa seja uma das formas mais maduras de reparação:

não exigir que a pessoa ferida acelere a própria cura para que nós possamos nos sentir perdoados.

Há relações que, depois de uma ruptura, encontram um jeito novo de existir.

Mais consciente.

Mais cuidadoso.

Com limites que antes não existiam.

Há outras que não conseguem.

E também precisamos aceitar isso.

Nem todo vínculo precisa voltar a ser o que era para ter sido verdadeiro.

Algumas relações mudam de lugar dentro de nós.

E talvez isso não diminua o amor que existiu.

Apenas reconhece que nós também mudamos.

Por isso, se você perdoou alguém e ainda precisa de tempo, não se culpe.

Se você entende o outro e ainda está triste, não se cobre.

Se existe amor, mas você precisa de distância, respeite esse espaço.

Você não precisa escolher entre perdoar e se proteger.

Pode fazer os dois.

Pode soltar a raiva sem devolver imediatamente a mesma intimidade.

Pode desejar o bem de alguém sem permitir que essa pessoa tenha novamente acesso a todas as suas vulnerabilidades.

Pode abrir uma porta sem deixar a casa inteira aberta.

Talvez perdoar seja, em alguns momentos, simplesmente parar de carregar aquilo todos os dias.

E seguir.

Não necessariamente para o mesmo lugar.

Mas para um lugar onde você consiga respirar melhor.

Porque o perdão não precisa devolver você ao passado.

Ele pode apenas permitir que você caminhe para frente.

Esta reflexão faz parte da série “Quando a relação nos atravessa”. Na próxima semana, vamos falar sobre os limites que aparecem quando dizer “não” já não parece suficiente.

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