Fui ao cinema com duas amigas para assistir ao filme de Mônica Martelli e Ingrid Guimarães: “Minha melhor amiga”.
Fui para rir.
E ri. Muito.
Mas saí do cinema pensando em coisas que não estavam exatamente na tela.
Talvez porque algumas histórias tenham esse poder bonito de nos encontrar no momento certo. A gente senta na poltrona achando que vai assistir a um filme e, de repente, alguma cena, algum olhar, alguma situação parece atravessar a tela e dizer:
“Eu conheço você.”
Foi assim comigo.
Em vários momentos, me peguei identificada com a personagem da Mônica. Com suas dúvidas, seus desejos, suas inseguranças, suas tentativas de se reencontrar. Com essa mulher que já viveu algumas coisas, já aprendeu outras, mas continua descobrindo quem é e o que deseja para a própria vida.
E talvez essa seja uma das coisas mais bonitas da história: ela nos lembra que amadurecer não significa deixar de desejar, de se apaixonar, de rir de nós mesmas, de fazer descobertas ou de começar de novo.
Existe uma ideia de maturidade que, às vezes, parece exigir que a gente fique séria.
Mas e se amadurecer também for aprender a levar a vida com mais leveza?
Olhar para a própria história com carinho.
Reconhecer que algumas relações terminam.
Que algumas versões nossas também ficam pelo caminho.
Que nem tudo acontece no tempo que imaginamos.
E que, ainda assim, a vida continua oferecendo possibilidades.
Inclusive possibilidades de amor.
Mas o que mais me tocou foi a amizade.
A amizade entre aquelas mulheres não está ali apenas para compor a história. Ela é quase um lugar de pertencimento.
Aquele lugar onde podemos chegar confusas, inseguras, apaixonadas, frustradas, exageradas, felizes ou completamente perdidas — e ainda assim encontrar alguém disposto a ficar.
Alguém que escuta.
Que aconselha.
Que dá bronca.
Que ri junto.
Que segura a nossa mão.
Que conhece nossas histórias e, mesmo assim, continua escolhendo estar por perto.
E isso me fez pensar nas minhas próprias amizades.
Nas mulheres que atravessaram diferentes fases da minha vida.
Naquelas que conheceram versões minhas que talvez nem existam mais.
Nas que estiveram presentes nas minhas conquistas, nas minhas dúvidas, nas minhas mudanças, nos meus recomeços.
Porque talvez seja isso que o amor entre amigas tenha de tão especial:
ele não exige que sejamos perfeitas.
Ele nos permite ser inteiras.
Com nossas contradições.
Com nossas inseguranças.
Com nossas risadas escandalosas e nossas lágrimas inesperadas.
Com aquilo que já compreendemos e também com aquilo que ainda estamos tentando descobrir.
O filme fala de separação, desejo, solidão, medo de se abrir novamente para o amor, amadurecimento, escolhas e tantas outras questões delicadas.
Mas fala de tudo isso com uma leveza deliciosa.
E talvez essa seja uma das grandes belezas da história.
Porque algumas dores ficam mais possíveis quando conseguimos olhar para elas sem perder a capacidade de rir.
A vida adulta, às vezes, nos convence de que deveríamos ter tudo resolvido.
Saber quem somos.
Saber o que queremos.
Saber com quem queremos estar.
Saber quando ficar.
Saber quando partir.
Mas talvez viver seja justamente continuar descobrindo.
Continuar se olhando.
Continuar se permitindo.
Continuar dizendo “sim” para algumas coisas e “não” para outras.
Continuar abrindo espaço para o inesperado.
E, principalmente, continuar tendo pessoas ao nosso lado enquanto fazemos esse caminho.
O filme também me fez pensar sobre uma coisa que considero muito importante: o direito de nos enxergarmos como mulheres, para além dos papéis que a vida nos oferece.
Mulheres que desejam.
Que se encantam.
Que se decepcionam.
Que mudam.
Que amadurecem.
Que têm medo.
Que se reinventam.
Que podem se apaixonar.
Que podem escolher não se apaixonar.
Que podem começar novamente.
Que podem descobrir novos sonhos.
Que podem simplesmente olhar para si mesmas e reconhecer:
“Eu ainda estou aqui.”
E talvez exista algo de muito bonito em chegar a determinadas fases da vida e perceber que não precisamos mais pedir licença para sermos quem somos.
Podemos rir.
Podemos amar.
Podemos desejar.
Podemos escolher.
Podemos mudar de ideia.
Podemos recomeçar.
E podemos fazer tudo isso acompanhadas de mulheres que nos lembram, quando esquecemos, do nosso próprio valor.
Naquela noite, fomos três amigas ao cinema.
Rimos juntas.
Comentamos as cenas.
Nos emocionamos.
E, em algum momento, percebi que talvez a experiência mais bonita não estivesse apenas no filme.
Estava ali, ao meu lado.
Naquelas duas mulheres que escolheram compartilhar aquela noite comigo.
Porque existem filmes que a gente assiste.
E existem filmes que, de alguma maneira, assistem a gente.
Aquele me devolveu um espelho.
E nele eu vi uma mulher que ainda está aprendendo, ainda deseja, ainda ri, ainda se emociona, ainda se surpreende e ainda acredita que a vida pode abrir novas portas.
Mas vi também algo que considero um dos maiores presentes que podemos receber ao longo da vida:
amizades que nos permitem florescer sem precisar deixar de ser quem somos.
Talvez seja isso.
Talvez amizade também seja uma forma de amor.
Uma das mais bonitas, inclusive.
Por isso, se você está lendo este texto e tem uma amiga que faz a vida ficar mais leve, mande uma mensagem para ela.
Convide-a para ir ao cinema.
Vá com duas, três, quatro amigas.
Riam juntas.
Comentem o filme.
Comam alguma coisa depois.
Conversem sobre a vida.
E, quem sabe, entre uma gargalhada e outra, vocês também se reconheçam um pouco naquelas personagens.
Porque alguns filmes são muito mais bonitos quando a gente assiste acompanhada de quem ama.
E esse, para mim, é um deles.
Para minhas melhores amigas, com todo meu amor!
Fabi
Dra. Fabiola Ferrari