Existe um tipo de cansaço que não melhora com uma boa noite de sono.
A mulher dorme, tenta desacelerar, organiza a rotina, segue funcionando… mas continua sentindo o corpo pesado, a mente acelerada e uma estranha sensação de esgotamento interno.
Como se estivesse sustentando o mundo inteiro em silêncio.
Muitas vezes, esse cansaço não nasce apenas do excesso de tarefas.
Nasce do excesso de responsabilidade emocional.
Há mulheres que vivem emocionalmente em estado de alerta constante. Percebem tudo. Sentem tudo. Antecipam problemas, acolhem dores, evitam conflitos, sustentam ambientes, organizam emoções alheias e, quase sempre, continuam tentando ser fortes mesmo quando já estão completamente exaustas.
São mulheres profundamente sensíveis.
Mas aprenderam, ao longo da vida, que precisavam suportar.
E então começam a existir no automático:
resolvem, cuidam, trabalham, acolhem, silenciam, continuam.
Mesmo cansadas.
A psicanalista Clarissa Pinkola Estés escreve, em Mulheres que Correm com os Lobos, sobre a importância de proteger a própria natureza instintiva e retornar àquilo que alimenta a alma feminina. Porque existe um momento em que a mulher não está apenas cansada fisicamente — ela está desconectada de si.
E esse afastamento interno cobra um preço alto.
O corpo tensiona.
A mente não desacelera.
O coração vive em vigilância.
Mesmo nos momentos de descanso, existe culpa.
Mesmo no silêncio, existe preocupação.
Mesmo quando ninguém pede nada, ela continua sustentando tudo internamente.
Muitas mulheres fortes foram elogiadas justamente pela capacidade de suportar demais.
Pela maturidade precoce.
Pela força.
Pela resistência emocional.
Pela habilidade de cuidar de todos.
Mas raramente alguém perguntou quem cuidava delas.
E talvez seja por isso que tantas mulheres estejam emocionalmente cansadas sem conseguir explicar exatamente o motivo.
Porque o esgotamento nem sempre vem do que fazem.
Às vezes, vem do que carregam.
Carregam expectativas.
Carregam culpa.
Carregam dores antigas.
Carregam a necessidade constante de dar conta.
Carregam o medo de decepcionar.
E aos poucos, sem perceber, vão deixando de habitar a si mesmas.
Existe uma tristeza silenciosa em mulheres que passaram tempo demais sobrevivendo.
Mulheres que se acostumaram a ser abrigo para todos, mas nunca encontraram um lugar seguro para descansar dentro de si.
E talvez curar esse cansaço não signifique se tornar menos forte.
Talvez signifique, finalmente, permitir-se ser humana.
Permitir-se parar.
Receber.
Descansar sem culpa.
Sentir sem precisar esconder.
E compreender que não é necessário carregar o mundo inteiro para merecer amor.
Porque até as mulheres fortes precisam de colo.

Drª. Fabíola Ferrari

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